"Sede cumpridores da Palavra e não apenas ouvintes; isto equivaleria a vos enganardes a vós mesmos." (Tg 1,22)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Bendita Vergonha

Consoladora homilia na missa diária do papa Francisco

Cidade do Vaticano, (Zenit.org)

“Vergonha” foi a palavra-chave da homilia do papa Francisco na missa celebrada hoje na Domus Santa Marta. Palavra, a princípio, de conotação negativa, mas que, segundo o Papa, na visãocristã,se torna uma virtude.
O confessionário não é nem uma «lavandaria» que lava os pecados, nem um «momento de tortura» onde se infligem pauladas. A confissão é um encontro com Jesus e sentimos de perto sua ternura. Mas é preciso aproximar-se do sacramento sem truques ou meias-verdades, com mansidão e alegria, confiantes e armados com essa "bendita vergonha", "a virtude da humildade" que nos faz reconhecer como pecadores.
Entre os concelebrantes, o cardeal Domenico Calcagno, presidente da Administração do Património da Sé Apostólica (Apsa), com o secretário D. Luigi Mistò, o arcebispo Francesco Gioia, presidente da Peregrinatio ad Petri Sedem, o arcebispo nigeriano de Owerri, D. Anthony Obinna, e o procurador-geral dos verbitas, Gianfranco Girardi. Concelebrou também D. Eduardo Horacio García, Bispo auxiliar e pró-vigário-geral de Buenos Aires. Entre os presentes, as irmãs Pias Discípulas do Mestre Divino que prestam serviço no Vaticano e um grupo de empregados da Apsa.
O Pontifice iniciou sua homilia com uma reflexão sobre a primeira carta de São João (1, 5-2, 2), em que o apóstolo afirma: "Deus é luz, e Nele não há trevas". Mas, se dissermos “que estamos em comunhão com Ele” e “andarmos nas trevas, somos mentirosos e não praticamos a verdade”.
O papa Francisco destacou que “todos nós temos obscuridades na nossa vida”, momentos “em que há escuridão em tudo, inclusive na própria consciência,mas “caminhar nas trevas significa estar satisfeito de si mesmo; estar convencido de que não precisa de salvação. Essas são as trevas!”.
Olhem seus pecados, os nossos pecados: todos somos pecadores –e continuou - “se confessamos nosso pecados, Ele é fiel, é justo a ponto de nos perdoar.”
Como recorda o Salmo 102: "Assim como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhorse compadece daqueles que o temem”.Ele sabe de tudo. "Não se preocupe, vá em paz", a paz que só Ele dá”.
Isto é o que "acontece no sacramento da reconciliação”. Muitas vezes – disse o Papa - pensamos que confessar é como ir a lavanderia. No entanto, Jesus no confessionário não é um serviço de lavandaria”.
A confissão "é um encontro com Jesus, que nos espera como somos”. Muitas vezes, temos vergonha de dizer a verdade: eu fiz isso, eu pensei aquilo. Mas a vergonha é uma verdadeira virtude cristã, e até mesmo humana. Acapacidade de vergonhar-se é uma virtude do humilde”.
"Jesus espera por cada um de nós, reiterou o papa Francisco citando o Evangelho de Mateus (11, 25-30):Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.Esta é a virtude que Jesus nos pede: humildade e mansidão”.
“Humildade e mansidão - continuou o Papa - são como a marca de uma vida cristã. “E Jesus nos espera para nos perdoar. Confessar não é como ir a uma “sessão de tortura”. “Não! Confessar-se é louvar a Deus, porque eu pecador fui salvo por Ele. E ele me espera para me repreender? Não, com ternura para me perdoar. E se amanhã fizer a mesma? Confesse-se mais uma vez... Ele sempre nos espera”.
Francisco concluiu: "Isso nos alenta, é belo, não é? E se sentirmos vergonha? Bendita vergonha porque isso é uma virtude.Que o Senhor nos dê esta graça, esta coragem de procurá-lo sempre com a verdade, porque a verdade é luz e não com as trevas das meias-verdades ou das mentiras diante de Deus”.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Pregador do Papa: São muitos ou poucos os que se salvam?

                "Enquanto caminhava para Jerusalém, alguém lhe disse: 'Senhor, são poucos os que se salvam?'".
Entrar pela porta estreita
                Existe um interrogante que sempre marcou os fiéis: são muitos ou poucos os que se salvam? Em certas épocas, este problema se tornou tão agudo que submergiu algumas pessoas em uma angústia terrível. O Evangelho deste domingo nos informa que um dia se propôs a Jesus este problema: "Enquanto caminhava para Jerusalém, alguém lhe disse: 'Senhor, são poucos os que se salvam?'". A pergunta, como se vê, trata do número, sobre quantos se salvam: muitos ou poucos? Jesus, em sua resposta, traslada o centro de atenção de todos que se salvam a como salvar-se, isto é, entrando "pela porta estreita".
                É a mesma atitude que observamos com relação ao retorno final de Cristo. Os discípulos perguntam quando acontecerá a volta do Filho do homem, e Jesus responde indicando como preparar-se para essa vinda, o que fazer na espera (Mt 24, 3-4). Esta forma de atuar de Jesus não é estranha ou descortês. Simplesmente é a maneira de atuar de alguém que quer educar seus discípulos para que passem do plano da curiosidade ao da verdadeira sabedoria; das questões ociosas que seduz as pessoas aos verdadeiros problemas que importam na vida.

                Neste ponto, já podemos entender o absurdo daqueles que, como as Testemunhas de Jeová, crêem saber até o número preciso dos salvos: cento e quarenta e quatro mil. Este número que aparece no Apocalipse, tem um valor puramente simbólico (12 ao quadrado, o número das tribos de Israel, multiplicado por mil) e se explica imediatamente com a expressão que lhe segue: "uma multidão imensa que ninguém poderia contar" (Ap 7, 4.9).
                Também, se esse fosse de verdade o número dos salvos, então já podemos fechar a porta, nós e eles. Na porta do paraíso deve estar pendurada, há muito tempo, como na entrada dos estacionamentos, a placa de "lotado".
                Portanto, se para Jesus não interessa tanto revelar-nos o número dos salvos como a forma de salvar-se, vejamos o que nos diz ao respeito. Duas coisas substancialmente: uma negativa, uma positiva; primeiro, o que não é necessário, depois o que sim o é para salvar-se. Não é necessário, ou em todo caso não basta, o fato de pertencer a um determinado povo, a uma determinada raça, tradição ou instituição, ainda que fosse o povo escolhido do qual provém o Salvador. O que situa no caminho da salvação não é um certo título de propriedade ("Comemos e bebemos em tua presença..."), mas uma decisão pessoal seguida de uma coerente conduta de vida. Isso está mais claro ainda no texto de Mateus, que contrapõe dois caminhos e duas entradas, uma estreita e outra ampla (Mateus 7, 13-14).
                Por que estes dois caminhos são chamados respectivamente de caminho "amplo" e "estreito"? Será que, talvez, o caminho do mal seja sempre fácil e agradável de percorrer, e o caminho do bem, sempre duro e fatigoso? Aqui é preciso estar atentos para não cair na freqüente tentação de achar que tudo acontece magnificamente bem, aqui abaixo, aos malvados, e tudo vai sempre mal para os bons. O caminho dos ímpios é amplo, sim, mas só no começo; na medida em que se adentram nele, ele se torna estreito e amargo. E em todo caso é estreitíssimo no final, porque se chega a uma rua sem saída. O desfrute que neste caminho se experimenta tem como característica que diminui na medida em que é provado, até gerar náusea e tristeza. Isso se vê em certos tipos de embriaguez, como a droga, o álcool, o sexo. Precisa-se de uma dose ou um estímulo cada vez maior para conseguir um prazer da mesma intensidade. Até que o organismo já não responde e chega à ruína, freqüentemente também física. O caminho dos justos, ao contrário, é estreito no começo, quando se empreende, mas depois se transforma em uma via espaçosa, porque nela se encontra esperança, alegria e paz no coração.

Fr. Raniero Cantalamessa
Artigo retirado do site: gruporenascer-rcc.blogspot.com.br